sexta-feira, 8 de julho de 2016

PORNOGRAFIA: MOCINHA OU VILÃ?


Em maio de 2016 recebi um convite da revista PSICOLOGIA da Mythos Editora para colaborar com um artigo sobre o tema pornografia. Abaixo, na integra, o texto que enviei a edição da revista:


Como a maioria, cresci com intensa curiosidade pelo sexo oposto. Além de uma ou outra expedição com o intuito de ver as dançarinas dos programas de TV do domingo a tarde, a minha inocência permaneceu intacta até eu completar 10 anos – quando a minha primeira exposição à pornografia de verdade a estraçalhou. O meu primo Allan, também com 10 anos, descobrira algumas playboy escondidas. Isso o deixou radiante como se acabasse de encontrar um tesouro oculto ao se vangloriar de sua descoberta para mim. As imagens obscenas daquelas revistas ainda hoje assombram as minhas lembranças. Após aquela experiência, desenvolvi um comportamento compulsivo pela pornografia, o que me gerou certa dependência emocional por esse comportamento que perdurou por um longo período da minha adolescência. Até os 16 anos me tornei um voraz consumidor de pornografia. A cada novo acesso precisava de material pornográfico com conteúdo mais pesado. Aquilo havia se tornado um circulo vicioso, onde precisava de uma dosagem maior e mais explicita para poder sentir prazer. Os efeitos colaterais do consumo da pornografia experimentados por mim foram os mais diversos. Desde sentimentos de inferioridade e angústias a comportamento antissocial e culpa. Naquela época, o consumo que eu regularmente fazia da pornografia gerava em mim, pulsão sexual desmedida, o que me atrapalhava na interação com as meninas, pois as enxergava como meros objetos sexuais. Aquele foi um período muito triste da minha história. Por triste que pareça, essa é a regra. De acordo com um levantamento de 2002 da revista Landon School of Economics [1], nove em cada dez crianças de 8 e 16 anos vê pornografia on-line. Ou seja, 90% delas. De acordo com o mesmo levantamento, na maioria dos casos as crianças relataram ter visto algo acidentalmente, em geral enquanto faziam o dever de casa e usavam um mecanismo de busca com uma palavra de aparência bastante inocente. Isso é algo que deveria realmente nos chamar a atenção, pois a inocência das nossas crianças e adolescentes está sendo devastada pela pornografia. Na minha experiência, como pastor de jovens de uma igreja batista, tenho aconselhado diariamente grande número de jovens consumidores de pornografia. A maioria desses jovens teve o primeiro contato com a pornografia ainda na infância e é claramente visível em suas vidas, as sequelas sociais causadas por esse comportamento. Conheço pelo menos cinco jovens rapazes que tiveram a interrupção de seus casamentos por causa da dependência da pornografia. Segundo eles, a pulsão sexual que lhes era natural, era direcionada para a pornografia, o que lhes diminuía a libido e o desejo sexual por suas parceiras. A falta de desejo sexual por parte deles, em seus casamentos, acarretava falta de intimidade com suas parceiras. Disso, decorriam brigas e mais brigas, até enfim, chegarem ao divórcio. Invariavelmente, pessoas que abusam da pornografia tornam-se imorais e superficiais. Segundo o psicólogo James Dobson [2] muitos desses jovens na idade adulta desenvolverão interesse por perversões sexuais. Eles desejarão o que há de mais perverso sobre a face da terra, como aconteceu com o maior serial killer da história dos Estados Unidos, Ted Bundy, que em sua última entrevista em rede nacional no ano de 1989, revelou ter ingressado em suas perversões sexuais e ter matado 35 mulheres, após o contato com material pornográfico em sua infância. A maioria das pessoas percebe que alguma coisa está errada, mas está confusa quanto as consequências da pornografia. Especialmente para aquelas que não tiveram contato direto e espontâneo com a pornografia, o complexo debate técnico e filosófico sobre o assunto parece transformar em bom aquilo que é ruim. Consequentemente somos tentados a evitar a controvérsia, deixando-a para os que parecem saber do que estão falando. Racionalizações complexas repetidas com seguro otimismo pelos especialistas em arte, literatura, política e filosofia, psicologia e psiquiatria e até pelos ministros religiosos, fazem calar aqueles que intuitivamente se opõe a pornografia. Diante de posicionamentos contrários e favoráveis a pornografia, duas questões sérias precisam ser respondidas. A pornografia é realmente um comportamento doentio ou é um comportamento que traz beneficio social? Ela é a mocinha ou a vilã? Nos parágrafos acima, tentei por intermédio de relato autobiográfico, exposição de dados estatísticos e também com experiência de campo responder a primeira pergunta, comprovando a nocividade da pornografia para a vida do indivíduo. Mas, abordar a questão principal da pornografia sem prejulgar seu conteúdo total não é tarefa fácil para os que têm uma cosmovisão religiosa, assim como eu. É necessário responder a segunda pergunta. A pornografia traz beneficio social? É provável que a mais influente defesa da pornografia já publicada seja a baseada na evidência contida no Presidential Commission Report on Obscenity and Pornography (Relatório da Comissão Presidencial sobre Obscenidade e Pornografia) [3], de origem norte-americana, publicado em 1970. A comissão foi criada em 1967, como resposta a preocupação que dominava os Estados Unidos de que sérias consequências poderiam advir do crescimento da pornografia.O relatório baseava-se na mais vasta evidência disponível naquela época. Organizaram-se pesquisas para investigar os possíveis efeitos da pornografia nas atitudes e comportamento. Analises, questionários e pesquisas em laboratório procuraram medir a excitação e o comportamento bem como identificar atitudes e valores de grupos de indivíduos normais e anormais. As pesquisas destinadas a colher a opinião pública evitaram o termo negativo pornografia, substituindo-o pela expressão material de sexo explicito. Esses trabalhos encontraram apenas grande variedade e diversidade. Alguns dos entrevistados expunham seu ponto de vista de que o material de sexo explícito poderia ser informativo, outros sentiam que podia ter um impacto adverso, enquanto outros acreditavam não ter qualquer efeito significativo. Até que a Comissão Presidencial Norte-americana sobre Obscenidade e Pornografia publicasse seu relatório em 1970, havia pouca dúvida na opinião pública de que o acesso a material pornográfico na comunidade era prejudicial. De fato, pesquisas de opinião pública indicavam isto de claramente. No entanto, diversos estudos apresentados àquela comissão deram amplo destaque à conclusão oposta, isto é, de que benefícios sociais reais poderiam surgir com a permissão para a livre circulação deste material.Foram os estudos realizados na Dinamarca e apresentados por B. Kutchinsky e R. Bem-Veniste, que forneceram uma firme sustentação para tal crença. A descoberta mais marcante foi que, em Copenhague, durante um período (1959-69) [4] quando estava aumentando a difusão da pornografia, o número de crimes heterossexuais registrados pela polícia caiu por volta de 63%. Bem-Veniste sugeriu que pelo menos parte do declínio devia-se, possivelmente, à “capacidade da pornografia pesada de canalizar o comportamento potencialmente anormal para o auto-erotismo inofensivo”. O estudo de Kutchinsky indicou que outra vantagem da legalização era uma redução de mercado para a pornografia. Sua pesquisa mostrou que o número de livros pornográficos publicados caiu drasticamente de 1.208.000, em 1968, para simplesmente 116.000 em 1969 [5]. Ele também fez um relatório a respeito do comportamento dos consumidores e concluiu que os dinamarqueses perderam rapidamente o interesse pela pornografia, deixando o mercado bastante dependente do comércio turístico. Para os países que começavam a inquietar-se com o crescimento da pornografia e, ao mesmo tempo, ansiavam por cultivar a liberdade de expressão, tais considerações eram muito bem-vindas, pois parecia que a remoção das restrições da censura contra a pornografia seria acompanhada de um beneficio social real. Kutchinsky argumentou também que, se o comercio da pornografia fosse legalizado, a comunidade seria amplamente beneficiada. Em virtude de a “máfia pornô internacional” sair rapidamente de cena, a diminuição da atividade criminosa poderia ser esperada. Além do mais, a desagradável incumbência de localizar a polícia para realizar com mais eficiência outros deveres. Os riscos de suborno e corrupção da polícia também seriam menores. Os estudos de Kutchinsky apresentaram os três principais argumentos favoráveis à legalização da pornografia no nível social: (1) redução dos crimes sexuais, (2) redução do mercado para a pornografia, e (3) redução do crime organizado (por exemplo, a máfia). A previsão de redução nos crimes sexuais de um pequeno estudo levado a efeito em Copenhague e relatado à comissão dos estados Unidos. A evidência deste declínio almejado foi analisada criticamente por diversos autores e julgada insuficiente. Ela apresentou falhas técnicas, os números não estavam de acordo com as fontes oficiais das quais supostamente vinham, e os resultados nunca foram reproduzidos ou confirmados em qualquer outro lugar. Novas pesquisas tem surgido com o intuito de comprovar os benefícios sociais da pornografia. Mas, assim como as pesquisas empreendidas por Kutchinsky, tem se comprovado tecnicamente imprecisas, o que invalida o argumento de que a pornografia traga algum tipo de beneficio social aos seus consumidores ou a sociedade como um todo.Os defensores da pornografia alegam que o que estão tentando corrigir são as inibições de nossos instintos devido às tradições pudicas – eles estão tentando nos libertar. Estão tentando, declaram, capacitar-nos para sermos mais cheios de vida e afetivos – para sermos mais “nós mesmos”, no campo sexual. O que tais defensores ignoram, são os inúmeros estudos que associam a pornografia a uma atitude negativa em relação à intimidade. Susan Fiske, professora de psicologia na Universidade de Princeton, usou exames de ressonância magnética em 2010 [6] para analisar homens enquanto assistiam filmes pornô. A atividade do cérebro revelou que esses homens passavam a olhar para mulheres mais como objetos do que como pessoas depois de assistirem filmes pornô compulsivamente. Uma gama de estudos semelhantes corrobora os malefícios gerados pela pornografia. A conclusão a que se chega, é que a pornografia não traz nenhum beneficio social, ao contrário, serve apenas apara agravar as mazelas dos indivíduos que fazem uso dela. Levando em conta a análise feita, a primeira coisa que podemos dizer, então, é que a pornografia é contra a vida. Rejeitá-la não é ser negativo quanto a vida. Ao contrário, é a própria pornografia que é niilista, redutiva e destrutiva. Ela é uma influência negativa na sociedade e na vida individual. Particularmente, a pornografia é contra as relações e, assim, contra a família. Por meio de sua obsessão pela prática sexual, a pornografia evita cautelosamente qualquer reconhecimento do valor das relações familiares. O casamento é ridicularizado, a promiscuidade é promovida, as relações incestuosas são celebradas e o sexo grupal é defendido. A sexualidade está totalmente relacionada à unidade da família e seu uso para a satisfação fora de um relacionamento é destrutivo. A reação mais óbvia à pornografia é defender a censura do conteúdo. Acredito que não devemos nos envergonhar de defender a censura. Mas precisamos levar em conta o fato de que essa é uma complexa questão legal e política. A censura sozinha não pode eliminar o problema da pornografia. Seu monstruoso crescimento é alimentado pela decadência espiritual e moral e pela perda de valores. No inicio deste artigo relatei o meu próprio drama com a pornografia. Dos 10 aos 16 anos me tornei dependente da pornografia. Era algo que eu não conseguia vencer. No máximo ficava uma ou duas semanas sem consumir pornografia. Não conseguia romper esse limite de tempo. Minhas quedas eram recorrentes e deprimentes. A minha cura adveio de uma experiência de fé. Aos 16 anos me converti ao cristianismo. Os ensinos do cristianismo sobre o valor e centralidade do corpo, mudaram a minha forma de pensar e enxergar a minha própria sexualidade. Por meio de meditação e orações, o poder escravizador da pornografia foi perdendo forças em mim. No lugar da pornografia, introduzi outros comportamentos que com o tempo tornaram-se hábitos saudáveis. Hoje posso dizer que sou livre da pornografia. Confesso que ainda travo uma luta diária para não ceder ao consumo da pornografia, mas a minha prática de fé tem me ajudado a viver livre desse comportamento. Para todos aqueles que ainda se encontram em dúvidas sobre os malefícios da pornografia, digo por experiência própria, que a pornografia é a vilã e não a mocinha da história de milhões de vidas que vivem escravizadas a esse comportamento doentio. Em minha vivência tenho visto inúmeras pessoas tendo seus relacionamentos interpessoais sendo destruídos por isso. Os efeitos causados pela pornografia na vida de tais indivíduos tem sido sem sobra de dúvidas, mortificantes e destrutivos. Para outros, que se identificam como dependentes desse comportamento deixo o meu exemplo de superação e uma nota de esperança. Você pode viver livre da pornografia. Escolha uma nova jornada de vida, onde novos hábitos serão introduzidos no lugar da pornografia. Siga o Cristo crucificado!


NOTAS


[1] apud Groeschel, Craig, Estranho, ser normal não está dando certo, São Paulo: Editora Vida, 2010.

 
[2] Dobson, James, Vivendo nos limites, São Paulo: United Press, 1998.

 
[3] Presidential Commission Report On Obscenity and Pornography (Nova Iorque: Bantam, 1970), Parte 3, cap. 2, PP. 197-309

 
[4] B. Kutchinsky, The Effect of pornography on sex crimes in Denmark (Copenhague: New Social Science Monographs, 1970), p. 101

 
[5] B. Kutchinsky, “Eroticism without Censorship”, International Journal of Criminology and Penology, 1 (1973), 217-25

[6] Texto digital, Disponível em: http://rodolfocapler.blogspot.com.br/2013/12/as-consequencias-do-vicio-da-pornografia.html (Acessado em: 15 de junho de 2016)




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